Dona Assunta era especial para mim. Avó na concepção mais caricata da palavra, tão rígida com os filhos e tão doce com os netos, os queridinhos. Mãos mágicas nas receitas tradicionais, rodavam a manivela do moedor de café e o cheiro se espalhava e preenchia nossos espaços de brincadeiras sem fim. No domingo caminhávamos até o cemitério onde jaziam dois filhos, e na rotina do carinho permanente e sem limites trocava flores e limpava os porta-retratos enquanto eu brincava entre os túmulos e jazigos, alheio ao sofrimento disfarçado pelos movimentos rotineiros.
Companheira, definhou depois que meu avô se foi e, não sendo mais ela, eu não dava conta de vê-la. Já sentia a perda, mas eu não imaginava que ainda tinha tanto a sentir.
Tchau vó.
Dá um Pontapé Nele !
sábado, 23 de agosto de 2014
domingo, 29 de agosto de 2010
Santo
- Dá um pontapé nele, fio!
Na lembrança mais antiga que tenho do meu avô eu estou ao seu lado em uma camionete bem antiga que ele tinha. Acredito que eu tivesse então uns 9 ou 10 anos e a camionete fosse uma Chevrolet ou GMC mil novecentos e lá vai pedrada, com câmbio na coluna de direção. Eu me sentia pequeno lá dentro. O carinho que ele me dispensava me fazia sentir bem.
Era comum eu passar as férias em Londrina e era comum que eu o acompanhasse na sua vistoria diária pelas obras. Naquele tempo ele construía casas para alugar ou vender e era uma espécie de engenheiro prático, o chamado "construtor". Me lembro também da severidade (mais ou menos condescendente) no trato com os pedreiros e ajudantes, uma mistura de professor e patrão. Era muito divertido.
Uma vez por semana eu o acompanhava ao sítio, onde se repetia a rotina da vistoria, agora perguntando pelas vacas, porcos e pegando na enxada ele próprio. A coleta da minha cana também era parte da rotina. Cana que seria descascada em sua casa, com o inseparável canivete de coldre.
Volta e meia tinha um trocado para o picolé, fliperama ou caldo de cana na esquina. Eventualmente um brinquedinho do bazar Ajimura.
Outra lembrança que eu tenho é dos maços de cigarro, Continental sem filtro. Fiz umas contas e acho que ele parou de fumar fazem uns trinta e cinco ou quarenta anos. Mas o fato é que me lembro que ele comprava pacotes e eu fazia construções e prédios com os maços. Diz minha mãe que ele parou de susto, quando um dentista lhe disse que uma mancha que ele tinha nos lábios podia virar um "cancerzinho".
Mais uma lembrança... o incansável hábito de ficar passando as mãos nas costas dos netos. Uma demonstração de tamanho carinho que só quem conhece entende.
Meu avô morreu na última sexta-feira. Milhões de lembranças que se traduzem na lembrança única de um homem bem normal, amado, curtido, sofrido pela morte de dois filhos e com uma vida muito relevante.
Ao lado da saudade fica certeza de que um bocado do que ele foi ficou em mim, em meus filhos e ficará nos filhos dos meus filhos...
Nosso último diálogo foi marcante. Estávamos sentados lado a lado em um banco do quintal quando ele olhou minha filha e disse :
- A menina está ficando muito bonita, fio.
Eu respondi:
- Está sim, vô, logo logo aparece um caboclo lá em casa...
E ele:
- Dá um pontapé nele, fio !
Na lembrança mais antiga que tenho do meu avô eu estou ao seu lado em uma camionete bem antiga que ele tinha. Acredito que eu tivesse então uns 9 ou 10 anos e a camionete fosse uma Chevrolet ou GMC mil novecentos e lá vai pedrada, com câmbio na coluna de direção. Eu me sentia pequeno lá dentro. O carinho que ele me dispensava me fazia sentir bem.
Era comum eu passar as férias em Londrina e era comum que eu o acompanhasse na sua vistoria diária pelas obras. Naquele tempo ele construía casas para alugar ou vender e era uma espécie de engenheiro prático, o chamado "construtor". Me lembro também da severidade (mais ou menos condescendente) no trato com os pedreiros e ajudantes, uma mistura de professor e patrão. Era muito divertido.
Uma vez por semana eu o acompanhava ao sítio, onde se repetia a rotina da vistoria, agora perguntando pelas vacas, porcos e pegando na enxada ele próprio. A coleta da minha cana também era parte da rotina. Cana que seria descascada em sua casa, com o inseparável canivete de coldre.
Volta e meia tinha um trocado para o picolé, fliperama ou caldo de cana na esquina. Eventualmente um brinquedinho do bazar Ajimura.
Outra lembrança que eu tenho é dos maços de cigarro, Continental sem filtro. Fiz umas contas e acho que ele parou de fumar fazem uns trinta e cinco ou quarenta anos. Mas o fato é que me lembro que ele comprava pacotes e eu fazia construções e prédios com os maços. Diz minha mãe que ele parou de susto, quando um dentista lhe disse que uma mancha que ele tinha nos lábios podia virar um "cancerzinho".
Mais uma lembrança... o incansável hábito de ficar passando as mãos nas costas dos netos. Uma demonstração de tamanho carinho que só quem conhece entende.
Meu avô morreu na última sexta-feira. Milhões de lembranças que se traduzem na lembrança única de um homem bem normal, amado, curtido, sofrido pela morte de dois filhos e com uma vida muito relevante.
Ao lado da saudade fica certeza de que um bocado do que ele foi ficou em mim, em meus filhos e ficará nos filhos dos meus filhos...
Nosso último diálogo foi marcante. Estávamos sentados lado a lado em um banco do quintal quando ele olhou minha filha e disse :
- A menina está ficando muito bonita, fio.
Eu respondi:
- Está sim, vô, logo logo aparece um caboclo lá em casa...
E ele:
- Dá um pontapé nele, fio !
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